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Desvio

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O DESVIO  

A mim pouco me importa
aberta ou fechada a porta,
vou entrar.  

E pouco me importa estar
sendo amada ou não amada:
vou amar.  

Que a mim me importa tanto
eu mesma e o sentimento,
quanto!  

A mim pouco me importa
se a tua amada é doente,
se a tua esperança é morta.

E me importa muito menos
se aceitas solenemente
a nossa vida parca e torta.

Porque a mim me importaria
deixasse de ser eu mesma
e a poesia.

A mim pouco me importa
se a lira quebrou a corda:
vou cantar.

E pouco me importa estar
no picadeiro do circo:
vou rodar.

Que a mim me importa tanto
eu mesma e o sentimento,
quanto!

A mim pouco me importa
se estamos todos presos
por uma invisível corda.

E me importa muito menos
sermos todos indefesos
ante o destino que corta.

Porque a mim me importaria
deixasse de ser eu mesma
e a poesia.

Yêda Schmaltz

Conheci as poesias da Yêda Schmaltz por um acaso, enquanto navegava em águas infinitas em busca de mais informação sobre minha pesquisa. Como num tropeço, me esbarrei nas palavras arrebatadoras dessa poeta que nasceu em Recife mas que viveu toda a sua vida aqui pertinho da gente, em Goiás.

Soneto de fidelidade

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“De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

(Vinícius de Morais)

*Fotografia por: Inácio*

 

Memória

“Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.”

Carlos Drummond de Andrade

-1959-

_DSC0601Uma (pequena) nota sobre essas flores do post.

Eu as comprei, ainda como sementes, num supermercado qualquer. Joguei elas na terra, ainda na casa dos meus pais.
Cuidei, vigiei. Dei carinho, namorei cada broto que ia surgindo.
Foram crescendo, ficando fortes, mas logo começaram a morrer, aos poucos.
Decidi que ia pegar duas mudas, cultivar na água, para futuramente levar para minha nova casa.
O restante que permaneceu na terra, morreram todas.

Quando plantadas na água, elas se desenvolveram bem.
Surgiram botões anunciando futuras flores. Confesso que fiquei emocionada.
Mas logo, percebi que os botões não desabrochavam, e sim, murchavam.
Pensei: “talvez precisem de terra, fincar raiz.”
Dei terra!
Estava curiosa.
Queria muito saber quais seriam as cores que aqueles botões escondiam dentro de si.
Continuei cuidando. Vigiando de perto.
Na terra, desenvolveram-se lindamente.
Cresceram! Me retribuíram com muitas flores brancas e  rosas.
De repente, puseram-se doentes.
Ficaram fracas, de folhas pequenas e caules finos.
De repente tristeza!
Fiquei de fato aborrecida com a doença.
Apenas uma insistiu em viver, sem se desenvolver bem.
Permanecia fraca e pequena.
Depois, também morreu.

Fez-se frustração!
Fiquei decepcionada comigo mesma pela morte das flores.
Falei para mim mesma que ia parar com isso, pois apesar de ser desapegada, não estava sabendo lidar com a morte de minhas plantas.
Não aprendi.
Continuo tentando.
Não sou cláusula pétrea, em absolutamente nada na vida…
Um sorriso me desarma.
Um pedido de desculpa me faz dizer “eu te amo”.
A esperança de fazer dar certo, de fazer permanecer as coisas mais lindas, ainda que em meio a tantos indícios de “não”, me faz persistir.
Às vezes em ideias absurdas, confesso.
Enfim, continuo jogando sementes por aí, aguardando ansiosamente por uma retribuição.

Motivo

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Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

       -Cecília Meireles-

O último poema

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Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira

*Foto do post disponível como print assinado e enumerado na lojinha*

Minha nova forma de poesia

bltE não é de ver que quando eu estava em vias de tirar um sonho da gaveta para excluí-lo definitivamente dos meus planos, eis então, que surge uma oportunidade maravilhosa de realizá-lo?!

Foi isso que aconteceu com o ballet.
Tem anos e anos que planejo começar aulas de ballet adultos. Houveram algumas outras boas oportunidades, porém na última hora sempre apareciam empecilhos. Consequentemente, para aliviar a angústia causada por preservar sonhos não realizados, durante uma séria e íntima conversa comigo mesma, cheguei a conclusão que desistir do ballet seria a atitude mais correta até então. E a desistência estava se dando de maneira calma, tranquila, sem nenhum pesar
Porém, em um dia qualquer, quando estava lanchando, avistei um anúncio de aulas de ballet para adultos na faculdade mesmo, e o melhor,  em um horário bom para mim. Não pensei duas vezes, peguei minhas coisas e segui rumo à faculdade de educação física, onde acontecem as aulas de dança, para pegar mais informações. Chegando lá, fiz a pré-matrícula, e saí de lá com um sorriso besta no rosto, quase saltitando de felicidade. Chegando em casa, conversei com o Inácio sobre a novidade, ele, para variar, protamente me apoiou, disse que não poderia deixar essa oportunidade escapar, pois desde quando nos conhecemos, lá, durante nossas primeiras conversas, eu já havia falado para ele sobre o meu grande desejo de fazer ballet, (achei tão lindo ele me lembrar isso…).

As aulas começaram, e eu estou amando. Amando profundamente!
Porém, descobri que sou mais desajeitada do que pensava. =O
Estou achando tudo muito difícil, mas empolgante ainda sim, e empolgação é o que não falta aqui. Tenho baixado vários vídeoaulas, tenho me alongado diariamente.

A empolgação é tamanha, que já estou de olho em outras escolas de ballet para adultos aqui em Goiânia, pois apesar de toda dificuldade que estou tendo, quero sim continuar a dançar para  até quando der._DSC0358IMG_6186Sobre as dificuldades, são muitas! Claro, era de se esperar. Nunca fiz dança, não praticava exercícios físicos… Mas de todos os desafios, muito além ainda da dificuldade de conseguir uma boa flexibilidade e equilíbrio, o mais complicado para mim, tem sido manter a postura, ou melhor, chegar a umas postura correta. Sério, para mim, é muito difícil ter uma postura “reta” de bailarina. Dói, dá agonia rsrs, mas tento.

Sobre minhas pretensões com a dança, não tenho grandes ambições, não almejo me tornar bailarina profissional. Sei bem das minhas condições. Para ser sincera, nem sei se um dia vou poder me apropriar da nomenclatura “bailarina” =P

Mas quem sabe um dia, eu poste aqui uma foto fazendo um belo arabesque, humn? XD

_DSC0482 Enfim, a minha verdadeira intenção com o ballet é primeiramente a de realizar um ‘sonhozinho’ antigo, outra, é tornar a minha vida mais poética e leve o quanto possível.

Desejo a todos, dias doces.